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Outubro Sangrento [Quem conta um conto aumenta um ponto] O voo negro - Amanda Bonatti

Opa Clubenautas, tudo bom?
Quem nunca ouviu aquele velho ditado popular que diz “quem conta um conto aumenta um ponto”? Seu significado é bastante simples, quer dizer que quem conta uma história que ouviu de outrem, sempre aumentará alguma coisa. E é mais ou menos assim que acontece com as histórias de lendas urbanas, aquelas contadas por nossos avós, repassadas por várias gerações e onde cada um teve a sua própria maneira de contar. O projeto "Quem conta um conto aumenta um ponto" vai te contar 1 conto por semana .... (continuar)

O voo Negro
1813
Mais Gritos ecoaram pelo casarão... Amy fazia força, empurrando o mais que podia, apertando os dentes e os lábios a cada vez que a dor aumentava.  Seu corpo nu era revelado pelas mornas lamparinas à beira da cama, onde lençóis branquíssimos já colavam às suas costas suadas.

— Tirem esses Demônios daqui, saiam!!! — Gritava, contorcendo-se.
Do outro lado da porta Augusto ouvia tudo sem entender. Assustado com os gritos que persistiam decidiu que entraria no quarto para ver a esposa, que estava dando a luz ao primeiro filho do casal.
Caminhou até a porta e percebeu que alguém a segurava evitando sua entrada.
— Deixe-me entrar! Por que tantos gritos?
— S.r. Augusto, acho que não deveria... por favor.
Augusto forçou a porta, ignorando o pedido da Freira, que acompanhava o parto de Amy, mas parou tão logo a porta abriu por completo.
Sombras escuras sobrevoavam o quarto e uma delas pairava sob o corpo da jovem, enegrecendo sua pele branca. Tão logo Augusto entrou, as sombras congelaram subitamente, sentindo a sua presença. Na parede formou-se uma grande imagem que parecia ser um rosto retorcido e diabólico.
Ficou paralisado diante do que presenciava, sentia todo seu corpo frio e trêmulo. Ouviram então um choro estridente de bebê.
As sombras voltaram a dançar agitadas nas paredes do quarto depois uniram-se e desceram sobre o corpo da mãe e filha que repousavam sobre a cama e os lençóis, desta vez, sujos de sangue.
— Amy? — Chamou pela esposa. — Amy!
Sua esposa estava morta. Sem dizer uma palavra, sem expressar qualquer tristeza, Augusto saiu do quarto e sentou na poltrona da sala. Em poucos minutos a freira trazia a criança enrolada em um tecido amarelo, bordado à fios de seda
— É uma menina S.r. Chermont, quer segurar a sua filha?
Augusto ergueu os olhos frios e fundos na direção da criança e em seguida assentiu com cabeça. Desajeitado segurou o bebê, que tinha a pele branquíssima da mãe, mas apresentava olhos tão negros que mal se enxergava a íris.
— O bebê não deveria ainda estar com os olhos fechados? — Perguntou à Freira, estranhando que um recém nascido tivesse olhos tão abertos e curiosos.


1807
6 anos 6 meses e 6 dias antes

Amy caminhava até o alto da colina Mougins, decidida que sem o amor de Augusto não lhe valeria à pena viver.
Olhou a imensidão do céu azul através do precipício à beira da colina, seu primeiro impulso era se jogar, mas sentiu medo, era fraca e não suportava a ideia de abandonar aquele por quem nutria um amor de infância. Se eu morrer ele também não deveria continuar vivo — pensou.
Já houvera sido rejeitada algumas vezes. Augusto amava outra mulher, mesmo assim, Amy nunca conseguiu evitar a paixão que crescia dentro dela a cada dia. — Augusto será meu a qualquer preço.
Ajoelhou-se no chão e desejou com força e ódio que aquela mulher por quem Augusto havia se apaixonado, morresse. Em seu coração somente fagulhas de ódio acendiam - se e queimavam em desespero.  Daria tudo o que fosse preciso, faria tudo o que pudesse mas não se entregaria até ter Augusto.
Sentiu uma repentina mudança nas correntes de vento, que soprava forte e frio, quase queimando a sua pele. Apanhou um punhado de terra e esmagou contra seu peito, sujando o vestido, depois atirou a terra para o fundo do vale, fazendo aquilo que ela não teve coragem, jogar - se, vencida.
Amy não estava vencida, lutaria pelo amor de Augusto. Subitamente se deu conta, de como havia escurecido rápido. Estava em poucos minutos no completo breu, não enxergava absolutamente nada.
Forçou os olhos para guiar-se no caminho. O frio havia aumentado ainda mais, Amy já estava arrependida de ter ido naquele local.
Ouviu então um choro que era familiar. Um choro que foi ficando mais evidente até que Amy pode enfim reconhecer, era a voz de Augusto.
— Augusto? — Perguntou.
Não houve resposta.
— Augusto? Quem está aí?
Uma risada ecoou no meio da escuridão.
— Quem está ai?
Mais uma vez silêncio, aquilo parecia um pesadelo.
— É isso que desejas? Que Augusto chore por você assim como já fizeste por ele tantas vezes? Quer que ele sofra? — Sibilou a voz.
Amy saltou assustada ao ouvir a voz e suas indagações.
— Quem... quem... está aí?
— Sua consciência, talvez. — A voz ecoou.
— Eu não desejo que Augusto sofra, eu o amo. Daria minha vida por ele. — Respondeu ouvindo o palpitar do próprio coração.
Ora, a quem pensas que enganas? Conheço teus pensamentos mais odiosos, tua amargura enraizada. - A voz dizia, desta vez em tom ameaçador.
— Quem é você afinal? Por que não se mostra? Ou vai embora... — Falou desejando mais a última alternativa. Estava com medo.
— Desejas que eu me mostre? Pois sim...
Amy não esperava por aquilo que viu, sobre sua cabeça formou-se um rosto retorcido, a própria face do demônio, enevoado e com olhos vermelhos como fogo.
— Socorro!! — Amy gritou porém logo sentiu o grito abafando como se alguém lhe tampasse a boca. Seu corpo estava paralisado.
— Ah, vamos, não sou tão feio assim... Conheço humanos com desejos mais feios do que minha aparência. Você não conhece? E eu os ajudo a terem o que querem...
— Não desejo o mal de Augusto, eu apenas quero que me ame.
— A qualquer preço — eu sei. Mas ele ama outra. — A voz falou com voz provocativa.
— Pois que morra! Que morra essa a quem Augusto ama — Amy gritou com ódio. Se podes me dar o amor de Augusto eu aceito, tu disseste que pode me dar o que desejo, és mesmo capaz disso?
— Pois sou, disso e muito mais, aceitas as consequências? Posso te dar aquilo que desejas, mas...
— Pois aceito tudo para ter Augusto! — Amy interrompeu.
— Pois bem.... És impulsiva, do jeito que gosto. Terás o que deseja, mas um dia eu também terei o meu prazer.
E as sombra de olhos dantescos desapareceu...
Muitos anos mais tarde

Eléonore não se lembrava da última vez que tinha saído para fora daqueles portões negros e pesados do convento Madelonn, no sul da França. Fora trancafiada naquele lugar ainda bebê, pouco depois da morte da mãe, no dia do seu nascimento.
O pai, Sr. Augusto Chermont vinha visitá-la uma ou duas vezes no ano, mas nunca a olhava nos olhos, evitava qualquer contato mais próximo com a menina e ia embora rapidamente. Parecia ter medo da própria filha.
E na verdade tinha. Então um dia ele a deixou lá para sempre.
Foi preciso “livrar-se da criança”. Nunca tinha visto tantas coisas ruins acontecerem em sua residência como naqueles 11 meses que o bebê esteve em seu castelo. Criados apareciam mortos, outros fugiam apavorados,  e Augusto vivia constantemente tendo pesadelos e uma dor de cabeça que só aliviou quando finalmente decidiu enviar a filha para o convento.
As Freiras aceitaram a criança, em troca um punhado de francos. Mas não demoraram para relataram ao Sr Chermont que desde que a menina havia chegado em Madelonn, coisas estranhas aconteciam. Eram vozes que ecoavam agonizadas pelas escadarias do convento, noviças assustadas com visões de rostos disformes e pesadelos.
Foi aos 11 anos que Eléonore viu o pai pela última vez. Ela não queria odiá-lo, mas quando o viu chegar em Madelonn sentiu uma vontade colossal de estrangulá-lo e arrancar-lhe os olhos, afinal, ele a abandonaria ali, ela sabia — uma voz a avisou.
Não queria ser responsável por todas as monstruosidades que aconteciam dentro do convento, apenas não conseguia segurar o ímpeto de desejar o mal, a morte.. até que ela viesse, fria e mansa morte. Depois, sentia um estranho prazer. — Como conseguia aquilo apenas com a mente?
O pai foi embora sem ao menos tocar na filha, - Adeus Eléonore, disse friamente - atravessou o pátio e chegou aos portões sem olhar para trás. Eléonore engoliu a seco e sentiu sua mente sufocada pelo desejo de ódio que a tomava de uma maneira que chegava a lhe arrancar o fôlego.
Precisava matá-lo, sabia que bastava desejar isso com um pouco mais de afinco, — sempre fora assim — lutava fortemente contra o desejo de ver o pai cair seco e frio no chão naquele mesmo instante — e só precisava desejar com mais força...
Lutava, não mataria o pai. — Calem-se vozes malditas.
Ofegou. Correu pelas escadarias de Madelonn — Não, não! Calem-se — Grunhia.
Chegou ao alto da torre do convento de pedra, tão  bem construído, com seus quatro andares e centenas de quartos.
Viu o pai entrar no coche. — Só precisava desejar com mais força.
Então decidiu...
Eléonore decidiu colocar um fim à sua Clausura e pendendo-se no alto da janela da torre de Madelonn, abriu os braços para o voo da morte.
Mas Eléonore não voou.
Seu corpo ficou inerte no chão. Retorcia-se de dor, sufocando com o sangue denso em sua garganta. Ficou ali no que pareceu uma eternidade, sentindo os ossos quebrados e toda a dor do ódio que sentia daquele lugar, das vozes e dos pesadelos que a atormentavam desde muito pequena.
Foi quando viu grandes sombras flexuosas arrastaram-se para fora do seu corpo e com elas, a dor lancinante cresceu sem piedade.
As sombras agitavam-se nas paredes do convento e a imagem de um rosto disforme parecia sorrir para Eléonore.
Então sucumbiu à morte gélida e impiedosa. E pode sentir até mesmo o seu cheiro de carne putrefata.
FIM


Amanda Bonatti é Catarinense, Pedagoga, Licenciada em Letras, pós-graduada em supervisão escolar e pós-graduanda em Revisão de Textos. Poeta, escritora, autora dos livros publicados: "Ah!mar Itajaí" e “S.O.S Mamãe de Primeira Viagem” e do Romance espírita “Lágrimas de Outono”.


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