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Olá queridos leitores! Em comemoração ao Dias das Mães , a escritora Rô Mierling e blogs parceiros se reuniram para presentea...

[ColaborAutoras] Algum Milagre? Contos da Fê

Bom dia! Hoje tem ColaborAutoras na área com a linda da Fê Jhones, e ela fez um lindo conto sobre a sensibilidade do amor, o perdão e a esperança, você acredita em milagres do coração?
Então leia esse conto e se deixe contagiar!
Let´s go!
Algum Milagre?


Era mais um dia daqueles. Depois de muitas tentativas de fazer suas pernas funcionarem, ele se sentia intensamente frustrado consigo mesmo. Onde tinha ido parar sua força? Tudo que ele dizia sempre acontecia, não podia ser diferente logo agora que ele precisava tanto.
Sempre acordava quatro da manhã e iniciava sua rotina cansativa de mentalizar com os olhos fixos nas pernas postas em cima da cama. Rezava fervorosamente todas as rezas conhecidas de sua primeira comunhão há tantos anos. Como dizem, a fé se manifesta nos momentos terríveis. E aquele sem dúvida era o pior momento de sua vida. Quer dizer... Não pior do que... Cinco e meia. Encerrou suas vãs tentativas de movimentar as pernas e voltou ao sono tumultuado. Era sempre assim, dia após dia.
Mas naquele dia em especial seu sono se aprofundou e ele sonhou. Fazia tempo que não via aqueles olhos que em seus sonhos estavam tão vívidos, cheios de alegria, um tipo de brilho único. Só que em seu sonho, aqueles olhos foram perdendo o viço e dando lugar a uma torrente de lágrimas silenciosas. Ele pode notar que ela se afastava e uma intensa angústia foi tomando conta dele. Até que não havia mais nada ao redor. Uma forte chuva começava e ele se sentia perdido, sem lar para ir. Foi quando um forte barulho o despertou e a luz irradiou pelo quarto forçando seus olhos a abrirem-se devagar.
Andando pelo quarto estava uma mulher, bem jovem, no que ele analisou como 18, 19 anos. Ela não parecia familiarizada com o local, mas movimentava-se rápido como se quisesse terminar logo o serviço.
-Vejo que acordou Lucindo. – Disse com a voz firme demais para uma garota de sua idade.
-Quem é você? – Perguntou ele tentando sentar-se.
-Sua nova cuidadora.
-O que houve com Amélia? Não me lembro de tê-la despedido.
Aquilo tudo estava ficando ainda mais confuso. Quem aquela garota pensava que era para entrar em sua vida daquele modo bruto, sem nem ao menos dizer seu nome?
Ela não respondeu, continuou em sua tarefa de organizar o quarto, seguindo para o banheiro onde ele ouviu o chuveiro ser aberto e depois de alguns instantes ela aparecendo na soleira da porta.
-Hora do banho.
-Quem é você? – Ainda mais confuso.
-Não imaginei que fosse tão cego e burro.
Suas palavras eram duras e frias. Mas algo no tom de sua vida fez com que ele achasse que a conhecia. De onde?
Ela então se pôs a ajudá-lo a mover-se da cama para cadeira de rodas. Aquela rotina já era conhecida para ele, mas na presença daquela garota tinha vergonha de sua condição. Olhando-a de perto pode perceber certa familiaridade em seu perfil, a ponta arrebitada de seu nariz e as sardas salpicando seu rosto. Mas ainda permanecia encoberto em sua memória.
Depois de alguns esforços dela, ele foi colocado em sua banheira com a temperatura exatamente como gostava. Ela não ficou para ajudá-lo e ele respirou aliviado por isso. A altivez em seus modos deixavam-o inibido como nunca havia ficado antes, só com...
Batidas na porta acabaram com seus devaneios do passado. Era sua nova cuidadora.
-Terminou?
-Sim.




Ela estendeu a toalha que ele segurou se sentindo desconfortável. Ela o ajudou a sair da banheira e o firmou na cadeira, deixando-o mais uma vez sozinho para que se secasse e vestisse parte das roupas.
Já tinha terminado seu café da manhã quando alguém bateu à porta. A cuidadora foi atender voltando para sala com Lúcio, seu antigo fisioterapeuta.
-Lúcio? O que faz aqui?
O fisioterapeuta pareceu desconcertado e virou o olhar suplicante para jovem que sorria.
-Eu o chamei.
-Você? Mas eu o dispensei há quatro meses! – Gritou.
-Eu sei. Mas eu o chamei de volta e hoje você retorna seus exercícios.
Ela exibia um olhar triunfante, como quem sabe que não pode ser contrariada. Ele a fitou bufando de raiva e quando viu seus olhos apenas soube. Era ela. Poderiam ter passado 17 anos, mas ele reconheceria aquele olhar em qualquer lugar do mundo. A familiaridade lhe assaltava com tanta força que perdeu a voz. E ela notou. Seu olhar se tornou cruel, duro.
-Pode ir para sala de fisioterapia Lúcio. Lucindo recomeça seu tratamento hoje.
Ele pensou em refutar, mas sabia que ela tinha a mesma força de... Era impossível lutar contra. A correnteza daquele olhar era forte demais. Durante a sessão de fisioterapia ele fazia tudo que Lúcio dizia, mas sua mente estava desconectada, estava há 17 anos atrás, em um passado tão distante quanto sua saúde plena.
Verão de 1996, dias quentes, ensolarados. Os problemas na empresa o sufocavam e sua paciência estava sempre por um fio. Ele poderia arrumar algumas mil desculpas para o que havia feito, mas no fundo sabia que seus atos eram imperdoáveis. Se era assim, por que ela tinha voltado? Ela era um pedaço de seu passado, um grande pedaço. Eram tantas as perguntas e ele tinha medo das respostas.
-Terminamos senhor Lucindo, nos vemos na sexta.
Lucindo assentiu e ficou virado para janela esperando reunir coragem para ir até ela e perguntar o por quê de tudo aquilo. O dia estava ensolarado, mas ele sentia que estava coberto por nuvens densas e plúmbeas. Todo aquele sol só fazia com que suas lembranças não cessassem. Ele pensava naquela manhã, no domingo em que tudo havia ultrapassados os limites e que ele havia perdido sua vida por completo.
-O dia está bonito não?
Ele se virou e ela o fitava tão intensamente que ele temeu pelas palavra que ouviria a seguir. Então ela montou um belo sorriso no rosto e disse que o almoço estava servido.
Ele dirigiu sua cadeira de rodas até a sala e havia apenas um prato à mesa. Tudo posto e nenhum sinal dela. Ele sempre fazia as refeições sozinhos, mas naquele dia lhe pareceu solidão demais. Em poucas garfadas estava satisfeito, na verdade não conseguia fazer descer nada além do que alguns grãos de arroz e pedaços de tomate. Seu estômago estava tão embrulhado quanto sua cabeça.
-Estava bom seu almoço?
Ela sempre surgia de repente e o surpreendia com a firmeza de sua voz. Agilmente retirou tudo da mesa e limpou.
-Pérola? – Conseguiu por fim dizer.
Ela parou quando o ouviu.
-Lembra-se do meu nome?
Sua voz era irônica.
-Sim, lembro.
-Do que mais se lembra?
Sentou-se de frente para ele na mesa. Ele não conseguia falar. Sabia que era um tipo de teste e tinha medo de errar na resposta. Queria perguntar dela, mas as palavras que pensava dizer pareciam bobas demais. Ela notou sua incerteza e sorriu vitoriosa. Estava tudo correndo segundo o que tinha pensado.
-Lembra-se dela? Hein Lucindo? – Inquiriu – Lembra-se da marca que deixou nela para sempre?
Aquelas palavras eram como pequenos cortes feitos de papel. Sutis, mas eficazes em fazer arder.
-Você pode não acreditar, mas eu sempre lembro dela, de vocês...
-Ah! Você se lembra? – Mostrando sua incredulidade – Como você é bom em se lembrar de nós.
-Pérola, eu...
-Você é um canalha! O tipo mais sórdido que eu já conheci na vida! – Berrou – Nem posso dizer que conheci não é? Afinal eu tinha apenas DOIS ANOS!!! Lembra disso? Eu tinha dois anos quando você estragou tudo!
Ele estava atônito. Ela não era uma menininha, era uma mulher com muita raiva, mais do que ele achava ser capaz de suportar.
-Não fale assim Pérola, por favor. Você é minha... – Suspirou – Filha.
-Ahhh, quer dizer então que agora eu sou sua filha??? Não lembrou disso nesses últimos 17 anos! Aliás, o que faria se eu dissesse que virei uma menina de rua e me prostitui para sobreviver?
O pavor tomou conta do rosto dele, um suor frio escorria e ele não conseguia mover um músculo do seu corpo. Ela fitou sua expressão de horror e gargalhou. Sua risada era tão prazerosa que o confundiu.
-Não querido Lucindo. Eu não fui uma menina de rua, muito menos prostituta. Não te daria esse gostinho de destruir minha vida. – Olhou-o com desprezo – Você é pouco demais para valer tanto.
-Pare! Por favor, pare!
A tensão era tão forte que poderiam até apalpar.
-Quer que eu pare? É uma tortura para você enxergar o monstro que é?
-Eu sei, eu sei que errei.
-Não, você não sabe. – Afirmou implacável – Você não sabe quantas cirurgias minha mãe teve de fazer. E mesmo assim continua lá, um pedaço do nosso pior pesadelo impresso no rosto dela. Você!
As imagens daquele dia voltaram com força. Tudo que Lucindo tinha tentado reprimir ao longo dos anos voltava sem que ele pudesse fazer coisa alguma.
Lembrou-se de Luma, sua esposa linda e graciosa, estava ninando a filhinha dos dois, Pérola, que tinha adormecido depois de uma incômoda febre. Ele tinha chegado da empresa e já havia bebido três doses de uísque quando Luma aproximou-se para lhe dar boa tarde. Ele não lembra exatamente o que foi, mas qualquer bobagem que Luma disse ou fez o tirou do sério. Não era a primeira vez que ele a agredia, mas dessa vez ela reagiu. Partiu para cima dele desferindo golpes que atingiam apenas o ar.
Os dois iniciaram uma luta corporal cheia de gritos e acusações, mas ele era muito mais forte do que ela, então para se defender Luma agarrou uma faca pequena que estava no balcão da cozinha. Antes que pudesse usá-la Lucindo a imobilizou. Pérola acordou chorando no andar de cima e com o susto dos dois, Lucindo acabou cortando o rosto da esposa. O sangue escorria junto com lágrimas de Luma e naquele instante ele soube que seu casamento tinha acabado. Não havia mais nada a dizer, ela foi até o banheiro e tentou estancar o sangue antes de pegar a filha dos dois e ir embora.
Lucindo não tentou impedi-la, mas a procurou dos dias seguintes, sem sucesso. Algumas semanas depois chegou pelo correio, sem remetente, um envelope com os papéis do divórcio. Ele assinou vencido e seguiu a vida. Agora tudo voltava para lhe atormentar.
-Por quê? – Perguntou exausto. – Por que você voltou?
Ela não respondeu. Saiu da sala e ele ouviu a porta de casa bater com força. Lucindo não sabia o que fazer, sabendo que na verdade não havia muito a ser feito. Sua filha tinha voltado e não era por bons motivos, ele tinha a sensação que ela queria acertar as contas. De qualquer forma, tudo ainda era muito confuso.
O dia passou e quando anoiteceu Lucindo se sentiu vulnerável. Pérola não tinha voltado e ele não saberia se virar sozinho. Desde o acidente e sua paraplegia, ele sempre contava com a ajuda de uma cuidadora 24 horas. Ouviu a porta da sala abrindo e Amélia surgiu.
-Boa noite senhor.
-Boa noite. – Respondeu sentindo-se frustrado – Você voltou? Quer dizer, onde está a Pérola?
-Dona Pérola me chamou e pediu que eu cuidasse do senhor até que ela voltasse.
Ela ia voltar. Pensou voltando a se acalmar. Talvez ainda fosse tempo de consertar as coisas.
Só que dois dias se passaram e nenhum sinal dela. Amélia se desdobrava em cuidados, mas Lucindo estava sempre mal humorado, além do costume.
No domingo por volta das 18:30 Pérola chegou. Parecia ainda mais forte do que antes, Lucindo que estava na sala fitando a televisão, virou-se para olhá-la enquanto ela conversava com Amélia, liberando-a para ir para casa.
-Achei que você tinha ido embora. – Falou Lucindo quando ficaram a sós.
-Preferia que eu fosse?
-Não querida.
-Não seja hipócrita, só estamos nós aqui, isso de querida não combina.
Lucindo respirou fundo e torceu para achar um jeito de quebrar todo aquele gelo que separava os dois.
-Então, o que aconteceu com você? – Perguntou Pérola jogando-se no sofá.
-Você quer dizer do acidente?
-Exato.
Ele a fitou por alguns segundos e uma tensão tomou-lhe o corpo. As circunstâncias do acidente não favoreciam em nada sua imagem, ele temia dizer tudo e perder ainda mais sua filha. Pérola o olhava como se tivesse um trunfo nas mãos.
-Você estava bêbado, dirigiu e bateu o carro. – Sentenciou – É tão difícil dizer?
-Se você já sabia por que me perguntou?
-Queria saber se você aprendeu a assumir seus erros.
Um silêncio constrangedor pairou na sala. Pérola pegou o controle e mudou de canal, ficou zapeando até encontrar um documentário sobre pinguins.
-Adoro pinguins. – Pensou em voz alta.
-Eu também. – Falou Lucindo aproveitando o momento espontâneo.
Ficaram em silêncio ouvindo as informações do documentário. Finalmente algo em comum, pensou Lucindo. Foram minutos confortáveis e quando o programa teve intervalo Pérola levantou do sofá.
-Quer alguma coisa da cozinha?
-Suco, por favor.
Ela saiu sem dizer palavra. Lucindo se sentia um adolescente diante da filha. Era como se os papéis tivessem se invertido e ele estivesse de castigo por alguma travessura muito feia. Pérola voltou com o suco, uma lata de refrigerante e salgadinhos de queijo. O programa recomeçou e assim a noite deles prosseguiu, programas, filmes e diálogos curtos. Ao menos o clima de tensão e briga tinha diminuido.
A semana seguinte foi silenciosa. Lúcio, o fisioterapeuta, continuava vindo e Lucindo fazia os exercícios a contragosto. Mas numa segunda-feira, ele explodiu.
-Saia daqui! Não quero mais fazer essas porcarias de exercícios! Vá embora!
Lúcio, já acostumado ao humor intempestivo de seu paciente, resolveu deixá-lo a sós. Em poucos instantes Pérola adentrou a sala de exercícios como um raio.
-O que você quer?! – Berrou ela – Que todos te larguem em cima de uma cama????
-De que adianta?! – Retrucou ele gritando – Fazem nove meses e essas drogas de pernas não funcionam!!!!!
-E parar os exercícios vai resolver?
Os dois gritavam a plenos pulmões.
-Continuar não tem resolvido. Foi por isso que eu mandei esse idiota embora da primeira vez!! Eles só querem o meu dinheiro!!!! Eu estou arruinado para sempre!
-O único idiota aqui é você!!!! – Pérola explodiu num choro – Sempre abrindo mão do que é importante! Quando vai perceber que a vida vai além dos seus desejos?!
O choro da filha fez com que ele parasse. Os dois sabiam que havia mais em jogo do que exercícios de fisioterapia.
-Sabe por que eu voltei?
Perguntou ela depois de respirar fundo. Ele balançou a cabeça dizendo que não.
-Porque eu achei que podia existir algo que ainda nos ligasse. – Secou o rosto com a mão – Pensei que te reconheceria como meu pai, pois eu não me lembrava de nada sobre você. Soube do seu acidente e desde então ensaiei como te procuraria. Depois soube que tinha desistido do tratamento e vivia preso em casa. Eu só...
A exaustão apareceu em seu rosto e ele soube que as palavras dela tinham acabado. Com a garganta seca pensou em dizer alguma coisa que fizesse sentido, mas não havia nada. Ela tinha razão, eles não tinham nada em comum, ela tinha dois anos quando tudo aconteceu e depois nunca mais voltaram a se ver.
Pérola saiu e o deixou com aquelas palavras sob sua cabeça. Uma sentença de que o passado tinha criado suas raízes nos dois. Como mudar aquilo?
Anoiteceu e ele não viu sinal de Pérola pela casa, provavelmente estava em seu quarto. Ele percorria a casa em sua cadeira de rodas, pensando no jeito certo de dizer tudo que deveria. E num segundo viu-se batendo na porta da filha.
-Posso entrar? – Perguntou quando ela abriu, estivera chorando.
Ela apenas deu espaço e ele entrou, ainda sem saber o que dizer exatamente.
-Diga.
-Eu queria dizer que você tem razão. – Começou sem jeito.
-Razão em que?
Suspirou, coçando a cabeça.
-Em tudo...filha.
A menção dessa palavra causou uma espécie de choque em Pérola, que deixou lágrimas rolarem pelo seu rosto. Lucindo notou que seus olhos eram os mesmos de quando era uma pequena garotinha, era ela, sua filha que só precisava dele, seu pai. Naquele momento, ele soube como sentia falta de sua família todo aquele tempo. Sentiu a culpa esmagar-lhe o peito, precisava recuperar o tempo perdido.
-Eu fui um péssimo marido, Luma não merecia minha grosseiria, meus maus modos e... – Lutava contra as emoções que o sufocavam, precisava dizer tudo até o fim – Não merecia minhas agressões. Eu repassei aquelas cenas todos esses anos, mas não me julgava merecedor de procurar vocês de novo.
Notou que nunca havia falado aquilo em voz alta. Ele se sentia tão indigno que não achava certo procurá-las.
-Sabe quais eram os piores dias Lucindo?
-Quais?
-Os domingos pela manhã. – Inspirou profundamente – Era o dia que meus coleguinhas diziam que iam brincar com o pai no parque, ou que iam lavar o carro com o pai, almoços em família. Você não faz ideia de como minha mãe se desdobrava para que eu não sentisse sua falta. E eu não queria sentir.
-Mas sentia? – Perguntou esperançoso.
-Todos os dias.
Ela foi até uma sacola que guardava suas roupas e tirou um pacote marrom enrolado com uma fita. Colocou no colo dele.
-Isso eu fiz para você. Um para cada dia dos pais nos últimos 17 anos.
Ele a fitou surpreso. Engoliu seco, antes de agradecer. Mais um momento que se encerrava sem que tudo fosse dito, ele soube que era hora de sair. Foi para seu quarto com o pacote nas mãos e quando abriu, seu coração parecia diminuir de tanto que apartava. Eram cartinhas, cartões, desenhos, 17 ao todo. Declarações de uma filha que sentia falta de seu pai. Ele então chorou. Não se lembrava que podia chorar, já não fazia isso há algum tempo. Nem quando o médico lhe disse que não podia mais andar, ele havia chorado. Suas lágrimas tinham desaparecido junto com sua felicidade, há 17 anos atrás.
No dia seguinte era Amélia quem estava servindo seu café da manhã.
-Onde está Pérola?
-Ela disse que tinha algumas coisas para resolver senhor.
-Volta ainda hoje?
-Acredito que sim. As coisas dela estão no quarto.
Quando ele estava terminando de comer, ela chegou.
-Bom dia.
-Bom dia, já comeu? – Perguntou cuidadoso.
-Já sim. E pelo que vejo você já terminou.
-Sim.
-Ótimo. – Sorriu – Amélia, por favor, ajude-o a trocar de roupa, nós iremos sair.
Lucindo ficou tenso, mas resolveu não resistir. Era o momento de refazer os caminhos, para isso alguns sacrifícios são necessários. Saíram e o motorista já os esperava, parecia conhecedor dos planos para aquela manhã.
Não demorou a que chegassem num parque. Com a ajuda do motorista, logo Pérola estava empurrando a cadeira do pai pelo parque. O dia estava bonito, ensolarado. Crianças brincavam num parquinho, ciclistas rodavam e haviam também pedalinho na grande lagoa no centro do parque.
-Lindo este lugar. – Falou Lucindo – Eu não conhecia, mesmo tão perto de casa.
-Para você ver quantas coisas nós perdemos por não prestar atenção.
-Anham.
Alguns minutos passeando, eles pararam na sombra de uma árvore, olhando para lagoa.
-Pérola, eu li tudo que você escreveu esses anos. – Iniciou – Muito obrigada, eu não mereço, nunca mereci.
-Realmente não merece. Mas não é disso que se tratam as relações entre pais e filhos? Não é sobre merecimento, é sobre laços, dedicação... – Suspirou – Amor.
Ele assentiu.
-Vou retomar os exercícios.
-Isso é bom.
-Filha...
-Sim? – Parecendo mais confortável com a nomenclatura.
-Será que você pode um dia me perdoar?
Ela virou-se para olhá-lo de frente.
-Não percebeu ainda? – Disse com calma. – Eu só voltei porque já tinha perdoado.
E em poucas palavras ele se sentiu absolvido. Como se uma grande e pesada mochila que ele trazia nas costas fosse removida e ele pudesse seguir tranquilo.
Ela não o chamou de pai, não passaram a conversar animadamente, nem se tornaram íntimos instantaneamente. Apenas sabiam que havia uma chance de reconstruir aqueles laços. Não tinham como mudar o passado, nem apagar as memórias, mas estavam dispostos a investir num diferente futuro.


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BEIJOS FÊ

Créditos:
Conto: Fê Friederick Jhones
Imagens: Tiradas da Internet
Diagramação: Giuli

3 comentários:

  1. Caraca... q lindo! Fê arrasando, como sempre!
    Senti saudade do papai agora... puxa...!
    Parabéns pelo texto e pela sua colaborAutora!
    Bj-Ka!!

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  2. Genteeeeeeeeeeee, Nuuuuu nem acredito que comentários estão aparecendo!! kkkkkkkkkkkk
    Hoje acordei ainda meio lerda de tão feliz!
    A Fê é fodástica eu digo pra ela isso todos os dias, para que não haja dúvidas e ela nunca deixe de escrever... <3
    Beijos Nu Linda!

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  3. Que coisa mais linda! A Fê tem um jeito de narrar que me encanta… Ela escreve de forma fluída, sem jargões ou termos complexos. Quando vemos, estamos no meio da história e querendo resolver tudo entre os personagens. Achei esse conto muito belo por trazer a vida como ela é. Problemas familiares sérios podem separar pais e filhos por anos. Nesse caso, entendemos que Lucindo errou de um jeito que nunca poderá ser apagado. Ele errou de um jeito que deixou na face da ex-esposa a sua agressão. Mas, ao mesmo tempo, ele se arrependeu amargamente. E o arrependimento foi tão grande que nunca pensou em ir atrás de sua família outra vez. Adorei ver a Pérola indo atrás do pai para acertar as contas, para tentar recomeçar, para conhecê-lo. É, com certeza, um dos milagres que o amor e a compaixão tornam reais.

    Beijos!
    http://www.myqueenside.blogspot.com

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