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[Coluna Marcio Zanini 78] Conto: Uma lista para meu amor - Marcio Zanini



Uma lista para meu amor.

Marcio Zanini


Lucia terminou de ler uma postagem no Facebook. Pensou por um tempo sobre essa sensação única que a internet proporcionava. A falta de distância ao alcance de um clique parecia assustadora se analisada. Podia sentir um nó na garganta ao se aprofundar no assunto ao mesmo tempo que lhe trazia a maravilhosa sensação de que tudo era possível, também sentia a angustiante ansiedade de que tudo parecia demais para uma pessoa simples como ela. Talvez o mundo fosse grande demais e essa sensação por si só já lhe era assustadora.
A falta de limites nunca esteve presente em sua vida de criação financeiramente humilde e moralmente rígida durante seu desenvolvimento. Como sobreviver neste mundo novo onde a sensação real de milhares de pessoas estarem ao seu alcance mostrando toda sua existência recheada de interessantes, atributos e competição por atenção?
Lucia tem a certeza de quem era. Um moça simples, humilde, honesta e com uma predileção de se manter assim, quase invisível. Não por falta de auto estima, mas por preservação deste mundo transbordando pessoas da tela de seu computador invadindo sua casa mental, seu santuário intelectual, que agora parecia ameaçado de tantas ideias que brilhavam na tela a sua frente.
A postagem de alguém em algum canto do planeta que de curtida em curtida acabou chegando até ela era uma lista.
Uma lista para meu amor.
Este era o título. Uma garota que estava solteira e cansada de conhecer pessoas que em sua totalidade nada tinha a ver com ela, decidiu então fazer uma lista, para que os futuros pretendentes preenchessem o máximo de requisitos possíveis antes de se candidatarem a vaga em seu coração.
A primeira reação de Lucia foi achar aquilo uma bobeira. Não acreditava que essa era uma maneira de se abordar alguém. Muito menos uma maneira gentil de iniciar algo. Em verdade, acreditava que essa garota devia estar desorientada em postar algo assim em público, expondo e sendo exposta nos seus mais íntimos pensamentos.
Para ela o amor não era algo a ser comprado de acordo com o encaixe e sim com o interesse arrebatador que nascia entre duas pessoas quando se vissem. Aquela explosão química que aconteceria eventualmente dentro do corpo fazendo seu organismo se desregular por um momento quando encontrasse alguém que lhe falhasse os joelhos.
Um amor à primeira vista?
A ideia de acreditar que todos no mundo são feitos cada um para seu devido par e tudo não passava de uma questão de tempo até que acontecesse tornava de maneira agradável o mundo menor e menos cruel. Quase sutilmente mágico, divino e simples.
As pessoas não deveriam estar nas prateleiras de um supermercado sendo escolhidas por sua embalagem e descrição do produto. Elas deviam estar andando com os carrinhos fazendo compras e quando menos esperavam eles se esbarravam, se olhavam e ali acontecia a mágica esplendorosa em sua simplicidade, assim como a vida.
O amor não deveria ser imposto. Só irei gostar de você se preencher certos requisitos mínimos. O amor não devia ser analisado, pensado, refletido ou esmiuçado.
Deveria ser sentido em todas suas entranhas. Devia ser avassaladora em sua essência e por isso, como consequência disso, forte o suficiente para que dois diferentes tenham a disposição de se adaptarem. Os opostos se atraem. Era isso que disseram a vida toda pra ela.
Após uma análise crítica sobre a postagem alheia, pois era isso que aquela garota havia despertado nela, desregulando suas convicções e lhe tirando de sua zona de certezas, começava a brotar a ideia do: E se ela fizesse uma lista? Como ela seria?
De acordo com a postagem da garota, havia dez requisitos que alguém dos bilhões que habitavam o planeta precisava levar em consideração antes de tentar algo. Lucia abriu o programa de textos e começou a digitar o que imaginava sobre o assunto. Uma brincadeira inocente para passar o tempo solitário.
Uma lista para meu amor.
1 – Meu amor precisa ser politicamente de direita.
2 – Precisa gostar de Cachorro.
3 – Ter admiração e respeito por sua família.
4 – Ser apaixonado por filmes e séries.
5-  Ler ao menos três livros por ano.
6 – Admirar os trabalhos domésticos a dois.
7 – Ser paciente.
8 – Decidido.
9 – Apaixonado.
10 – Batalhador.
11 – Espirita.
12 – Dotado de auto estima.
13 – Usar barba.
14 – Viril.
Bem mais que dez. Não segurou o sorriso após terminar a lista. Se fosse postar essa lista no Facebook, o que não aconteceria, com certeza teria que fazer mudanças. Era intimo demais. Sabia que expor suas visões políticas e religiosas, por si só, poderia geral discussões.
Os olhos de Lucia correram pela tela do computador até o relógio no canto. Sete e quarenta e cinco da noite.
Onde estava com a cabeça. Iria acontecer um churrasco dentro de alguns minutos em sua casa e ela estava ali, vagando a imaginação em bobeiras eletrônicas.
Desligou a tela do computador e olhou cada cômodo a fim de conferir se tudo estava em ordem. Era a primeira vez que receberia os amigos em casa após quase um ano solitária. Seu namorado morreu em um acidente de carro. Após o luto e ter se fechado para quase tudo e todos, havia finalmente chegado a hora de voltar a socializar, o que parecia estranho já que ela socializava bastante via rede social.
Paulo foi o primeiro a chegar. Amigo de longa data, foi um dos responsáveis por persuadir Lucia a fazer uma festa.
- Sou o primeiro? – entrou carregando sacolas com bebidas e carnes de maneira desengonçada.
- É sim. – riu tentando ajudar o amigo a carregar tudo.
- Primeiro a chegar e último a sair. Você me conhece nê. – colocava tudo na geladeira. – E ai, ansiosa?
- Uma pilha Paulo. Acho que perdi as regras do convício social. Só tenho me comunicado com todos pelo computador. Você é um dos poucos amigos que é real pra mim.
- Que regras? Está louca? Seja você mesmo. Não vai vir ninguém diferente. Todos que conheciam vocês.
Paulo suspirou. Tinha prometido a ele mesmo que não tocaria no assunto proibido. Em nada que fizesse Lucia lembrar de Alexandre. Hoje o dia deveria ser de festa.
- Por favor não fique triste Lucia. - lamentou profundamente.
- Não estou. Ficaria triste se ninguém se lembrasse dele. Ele fez parte da nossa vida.
- Para. – brincou. - Vou por uma música que todos já devem estar chegando.
Lucia suspirou fundo. Não teve muito tempo para analisar nada, a campainha já estava tocando e havia mais barulho de carros parando na frente de sua casa.
Todos foram entrando animados ao som da música e da desenvoltura de Paulo. Beijos no rosto, perguntas de como está e felicitações de bom te ver eram distribuídos entre todos a ponto de Lucia ficar confusa de qual direção vinha cada voz.
Então, sem perceber, dá de cara com Aldo. Seu tamanho cobre quase toda a porta. Cabelos negros e barba curta aparada. Olhar firme, rosto quadrado e corpo largo.
- Como vai Lucia. Depois de três anos finalmente nos encontramos. – O beijo no rosto vem de Kátia que em seguida se vira pra Aldo. – Esse é Aldo, meu novo “peguete”. – ela ri alto quase escandalosamente.
- Prazer Aldo. Sou a Lucia. Seja bem-vindo. – sorri admirada.
A mão dele cobre a mão dela por completo no cumprimento. O choque e desejo foi inevitável. Ele era um homem lindo demais para passar despercebido sem criar ideias na mente dela.
- O prazer é todo meu. Obrigado pelo convite Lucia.
Paulo interfere fazendo todos entrarem. Lucia pensa em Kátia e em como elas não parecem mais amigas. Há três anos só conversam esporadicamente via internet. Não havia mais contato, intimidade ou cumplicidade entre elas que um dia já foram amigas inseparáveis.
A festa transcorre bem. As pessoas estão animadas e comunicativas. Algumas ficam o tempo todo no celular levantando os olhos de vez em quando para conferir alguma conversa mas logo perdia o interesse. Por um breve momento Lucia se sente realizada em voltar a ter contato com os amigos. Poder tocá-los, sentir o abraço pareceu algo mágico.
Mas não durou muito tempo. Logo se sentiu invisível de novo. Parecia que não estava postando nada na festa para ser curtida. O que teria a oferecer sendo que passou um ano trancada no seu próprio mundo depois que Alexandre morreu e quando algo lhe acontecia todos já sabiam virtualmente.
Katia se aproximou curiosa.
- Como vão as coisas Lucia? O que tem feito de bom?
A amizade entre as duas agora parecia forçada. Quase uma obrigação. Havia sérias dúvidas que o único motivo de ela ter vindo era para exibir o maravilhoso Aldo.
- Não muito. Trabalhando. E você?
- Viajando claro. Não viu as fotos que postei? Cada lugar e homens maravilhosos. Você devia conhecer. Aliás, tem curtido pouco meus posts. Até achei que estava com raiva de mim.
- Imagina. Na verdade sinto falta de nossa amizade.
- Querida. Você estava namorando e eu tinha muitas pessoas para conhecer. As coisas mudam.
Com essas palavras, Kátia fez um filme da vida delas passar na mente de Lucia. Um filme lindo mas que agora estava mostrando um triste final. Elas não cantavam mais a música do grupo preferido juntas dentro do quarto fantasiando um namoro com o vocalista.
- E o Aldo?
- Vai mais ou menos. Um cara bacana mas não temos muito que combina. Você acredita que ele nem tentou fazer sexo comigo ainda? Se não for gay, quem sabe dá certo. Mas você me conhece nê, logo pulo pra outro. – Ria com gosto.
- Cadê ele por falar nisso?
- Mandaram um whatsapp para ele do trabalho que precisava responder um e-mail. Falei pra ele usar seu computador. Espero que não tenha problemas.
- Não, claro que não. – deu de ombros.
Então Julia arregalou os olhos. A lista.
Ela só desligou a tela do computador, mas o documento estava lá.
- Da licença um pouquinho Kátia. Já volto.
- Claro, vai lá. – fez uma cara de desdém assim que Lucia se virou.
Lucia anda depressa pra sala. Talvez daria tempo de desligar tudo antes que Aldo visse sua lista. Quem sabe alguém parou ele pra conversar no meio do caminho?
Assim que entrou na sala, ele estava desligando a tela do computador.
- Oi Lucia. Espero que não tenha problema ter usado seu computador.
- Não tem. – Ela respondeu desconfiada. Talvez ele fosse um homem sem curiosidade e não leu nada.
- Legal. Vou pegar mais uma cerveja.
- Lá na geladeira Aldo. Fica à vontade.
O alivio lhe batia a porta. Nenhum comentário. Nem um risinho que denuncia-se algo.
Então ele virou pra ela assim que passou.
- Só por curiosidade. – riu fazendo uma pausa decidindo se diria ou não. – Eu preencho os quatorze requisitos.
Ele saiu deixando Lucia sem chão. Aquele homem havia acabado de lhe dar uma cantada? E Kátia?
Lucia saiu da sala tentando afastar Aldo da mente. Antes de ir pro banheiro olhou para a festa no quintal. Kátia dançava enlouquecida no meio da roda de amigos, rebolando e gesticulando sendo o centro das atenções. Aldo via tudo de longe decepcionado enquanto tomava um gole de cerveja. Lucia admirou as costas e ombros largos dele quando ele se virou com olhar felino. Ela baixou a cabeça e quase correu pro banheiro. Ele segurou a porta que ela estava fechando e por pouco ela não prendeu a enorme mão dele.
Os olhos deles se cruzaram e Aldo puxou um suspiro tomando fôlego.
- Eu conheci Kátia essa semana. Claramente não temos nada em comum. Ela passou a semana falando de você e dessa festa, só não terminei com ela antes porque depois de tanto saber da sua vida queria te conhecer. E de acordo com sua lista foi a melhor coisa que fiz.
- Não diga isso. Aquela lista foi uma bobagem. Um brincadeira.
- Uma brincadeira que combinou perfeitamente comigo.
- Kátia é minha amiga. – afirmou mais para si mesma do que para ele.
- É? E porque não se viam a três anos? Que tipo de amizade é essa? Ela nem foi no velório do seu namorado porque não ia com a cara dele.
- O que mais ela te contou?
- Tanta coisa que já vim admirado por você antes de chegar aqui. O que ela julgava sem graça em você, para mim só fazia aumentar meu interesse em te conhecer.
Ele já estava dentro do banheiro.
- Escuta. Esquece isso. – ela apoiou as duas mãos no peito dele para empurrá-lo para fora. Ele inflou o tórax suspirando parado como uma muralha e olhou para baixo nos olhos dela.
Então, sem aviso ele a beijou. Os lábios macios dele pressionaram os dela. A barba dançava ao redor da sua boca enquanto sua língua inchada e vermelha invadiam a boca de Lucia deixando o gosto dele. Os braços ao redor dela pareciam levantá-la do chão enquanto seu corpo era pressionado contra o dele.

- Eu esqueço isso se você esquecer esse beijo. Deixei meu número de telefone salvo no seu computador. Eu vou terminar com Kátia hoje. Amanhã estarei livre.
Ele saiu do banheiro mas ela ainda podia senti-lo em seu corpo e boca. Tentou tomar uma cerveja para tirar o gosto dele. Kátia já havia bebido em excesso quando a festa acabou e todos foram embora não antes Aldo trocar olhares com ela.
Lucia viu o bloco de notas salvo no seu desktop. O celular de Aldo estava ali. Ela pensou que se houve interesse pelo rapaz era um sinal de que seu luto já havia passado. Estava na hora de seguir a diante. Mas e Kátia. Ela era sua amiga, mas a tempos não agia como uma. Só conversavam virtualmente e muito pouco. Mal respondia suas mensagens e nunca se importou em ajuda-la no momento de dor quando Alexandre partiu. O que era uma pena. A amizade das duas foi algo especial que carregava com carinho de uma época boa. Mas Aldo estava grudado nela por toda sua pele e mente. Como ficaria com ele?
Kátia com certeza seria um problema. Iria fazer confusão quando descobrisse. O Facebook iria se encher de dramas e reclamações do quanto Lucia era desonesta e roubou Aldo dela. O mundo parecia um lugar grande demais com a internet, eram muitas pessoas para imaginar o que cada um diria sobre ela estar com Aldo. Sua mente tonteava só de imaginar os comentários e de como teria que se defender de cada um deles. Não havia como ficar com Aldo sem destruir o resto de amizade entre elas. Ainda era uma amizade ou já estava na hora aceitar que o fim já havia acontecido a muito tempo? No fundo ainda tinha uma ponta de esperança de que essa festa pudesse fazer toda a amizade surgir de novo.
- Você terminou com ela? – perguntou Lucia quando mandou uma mensagem no whatsapp no dia seguinte.
- Sim. Podemos nos ver? Posso ir na sua casa?
- Pode. – franziu a testa sem muita certeza.
Os dois conversaram por horas pessoalmente. Aldo era um rapaz incrível ao que parecia. Realmente combinava com tudo que Lucia esperava em um homem. Após passar o dia juntos, ele a amou com gosto. Havia se interessado honestamente por Lucia no momento que a viu e ela por ele.
Olhou para ele deitado de bruços em sua cama dormindo. Sorriu sentindo-se uma garota de sorte com ele ao seu lado e mesmo que não soubesse, Aldo pensava a mesma coisa em relação a ela.
Saiu da cama devagar para não acordá-lo. Sentou na cadeira de frente para o computador, abriu o Facebook e excluiu sua conta. Suspirou fundo aliviada. Agora o mundo não era mais tão grande. Não importava mais o que diriam. Não precisavam saber. Paulo, Rose e Gina que em todos esses momentos a visitavam e se recusavam a ser amigos apenas virtuais era o que importava. Eram seus verdadeiros amigos como um dia Kátia foi. As amigas cresceram e a ausência fez tudo não importar mais. Lucia havia encontrado um novo amor. Paulo, Rose e Gina ficariam felizes por ela como todo amigo deveria. O mundo é um lugar grande demais para se importar com os pensamentos de todos e de quem não é mais amigo. O que faz na vida pessoal não importa aos outros e a vida dos outros também não deve lhe importar.
Voltou para cama. Aldo virou abraçando ela, ainda sonolento.
Pensou mentalmente com carinho em Katia e na lembrança das duas dançando no quarto ao som do New Kids on the Block, e sorrindo, disse para si mesma, adeus velha amiga. 


E você leitora(or)? Como seria sua lista? :)


Quem escreve:


Marcio Zanini  

mora em Bauru. É o autor de Vítimas da Obscuridade e Crônicas de Markus (aguardando lançamento). Escreve e esta constantemente criando histórias desde que se entendo por gente. Durante muitos anos trabalhou com Histórias em Quadrinhos em algumas editoras de São Paulo, onde pode colocar em prática sua imaginação. Atualmente compartilha suas ideias e pensamentos através de textos. Ama escrever e é isso que faz na vida.
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